Às vezes

Às vezes eu queria um pouco de silêncio, não a ausência do barulho cotidiano porque desse eu consigo me livrar facilmente. Alguns quilômetros, ou quem sabe fones. Os ruídos externos não são o problema, o que perturba são os ecos na alma. Em algumas ocasiões a minha própria voz, em outras. Outras.

Reverberações do que eu disse, ou até mesmo do que deixei de dizer. Coisas que me disseram ou que eu gostaria tanto de ouvir. Flamulam minhas vestes quando passam como trens apressados, rentes ao meu corpo. Ecoando. Ao invés do chiado do vapor, que escapa após impulsionar o motor, um sussurro. No lugar da estridente sirene, um grito, às vezes alegre às vezes aflito. Às vezes nem sei.

O Escudo da Verdade

O que te representa a verdade?

Um indefectível escudo dourado cravejado com pedras preciosas que ofuscará seus inimigos com seu resplendor? Ou um escudo enferrujado de contornos irregulares, ornamentando com marcas de balas e outras ranhuras de guerra?

Penso que toda verdade para ganhar e permanecer nesse posto precisa ser constantemente defendida, e o atrito gera luta e todo embate deixa registrado suas marcas. O que há por trás de um escudo brilhante na verdade é apenas uma grande mentira.

Não falarei mal do carnaval

Não ousarei falar de uma festa tão bonita, onde o povo sai as ruas alegre, apesar de todo tipo de mazela que se abateu sobre ele nos demais 364 dias do ano. Por mais que eu ache que esse dia é aquele pano quente, sobre a bofetada dada intencionalmente no dia anterior, e sem razão alguma. Não falarei mal não.

Talvez, apenas eu sinta, como se nesse dia o dono da senzala tivesse tirado por algumas horas as correntes, correntes essas que não merecemos carregar, e nos servisse comida à mesa ao invés do tradicional joga-la ao chão. Deve ser só uma impressão pessoal, bobagem.

Devo ser só eu, provavelmente, que se pega pensando como estão gastando o dinheiro que nos roubaram, nossos representantes, nos dias anteriores a essa grande festa. Será que é mais divertido o carnaval quando torramos o dinheiro que não é o nosso? Está ai uma experiencia que nunca tive, acho que você também não.

O que vale é a festa, para alguns vários dias de descontração para outros nem tanto. Um tempo onde é permitido fazer quase tudo, falsa sensação de liberdade. Deve ser a idade, devo estar ficando ainda mais ranzinza, mas puxando um pouco a grua e vendo nosso país de longe é como se o governo estivesse, nesse momento, fazendo o papel dos nossos pais. Nós de uma maneira geral, dos filhos. Crianças pequenas e choronas. E o que os pais fazem quando querem fazer algo sem ser interrompidos? Colocam na TV alguma coisa que nos roube toda a atenção: A Peppa!

Quatro dias de paz, as crianças entretidas e os pais podendo se dedicar as suas atividades. Jurei que não falaria mal do carnaval, acho que não falei, não é? A Peppa é legal! Não chega a ser uma critica. O incrível é o anúncio que o carnaval é uma festa “popular”. É tão popular quanto o desenho da Peppa é indicado para adultos!

E assistindo ao colorido desenho quem mais ganha nunca é quem parece estar se divertindo …

O Peixe e o Macaco

Caminhava, como faço diariamente, em uma destas belas manhãs, quando em busca de algo novo decidi alterar um pouco o tradicional trajeto. Há algum tempo planejava visitar um belo lago, encravado em um  bosque perto daqui.

Algumas centenas de passos depois, estava em frente à lagoa. Confesso que era algo bem maior e mais bonito do que esperava, sua vasta extensão me impedia de ver o outro lado e vistosas árvores salpicavam as suas margens, criando um contorno verde incrível.

E foi em uma dessas árvores que vi um pequeno macaco, requebrando-se em acrobacias, fazia de tudo saltando de galho em galho, parecia que estava em uma competição, dada era sua disposição e variedade de movimentos. Sentei um pouco para apreciar sua exibição e notei que não era o único que o observava. Na margem do lago, um peixe acompanha todos os movimentos com muita atenção, mas seu olhar triste não combinava com todo aquele cenário.

Continuei a observar o primata, que a essa altura, já mostrava sinais de cansaço, até que decidiu dar uma pausa na apresentação e descansar sob a sombra do seu palco. Aproximei-me do acrobata o parabenizei pela explosiva sequência de movimentos. Ele agradeceu e continuou recobrando o fôlego. Comentei que ele tinha espectadores até dentro d’água, mas ele não se mostrou surpreso. Falou que o peixe passava a maior parte do seu tempo o observando nas copas das árvores.

– O maior sonho desse peixe e fazer o mesmo que eu faço, saltar de galho em galho, e talvez até seja por ele que eu me esforço tanto nos movimentos. Acho que minha natureza é meio exibicionista. – ri o macaco, já respirando normalmente.

Busco o peixe, mas ele já não estava mais na plateia. Despeço-me do felpudo novo amigo e continuo minha caminhada.

Refaço o percurso no dia seguinte, na esperança de encontrar novamente a dupla e lá estavam eles: espectador e ator nas mesmas posições, demonstrando a mesma alegria e agitação de um lado e a mesma tristeza e apatia do outro. Desta vez decido ir para o lago conversar com o pensativo morador das águas. Confirmo pouco depois de iniciada a conversa o maior sonho do lacustre amigo:  as árvores, os saltos, o impossível… Tento entender de onde nasceu aquela necessidade, aquela estranha e inusitada expectativa e por consequência, tão grande fonte de frustração, mas ele não soube me explicar.

Ingenuamente pergunto:

– Por que você não convida o macaco para nadar?

Ele me responde que nadar era sem graça… Insisto no convite e nesse ponto, já sem ninguém para assisti-lo, o macaco se junta ao grupo.

Alegre e sempre disposto, o macaco se propõe a nadar com o peixe e sem pensar duas vezes, pula na água e inicia uma corrida com o peixe até a outra margem, incitando o lacustre amigo a lhe acompanhar.

Não foi de se estranhar que o peixe já houvesse ido e voltado, enquanto o macaco se debatia a poucos metros da margem.

Encharcado e já não tão feliz, o macaco saiu do lago, espalhando água por todo o lado enquanto se agitava. Admitiu, por fim. que não tinha a menor chance contra o peixe e voltou para as árvores, a fim de fazer o que sabe de melhor. Como em um passe de mágica, agora, parte da alegria do primata, estampava um sorriso no pequeno peixe. Nadar não parecia mais tão entediante agora e nesse momento, o peixe salta e parte em mais uma travessia do lago. Da margem, só via as pequenas ondas circulares que se formaram após suas piruetas fora d’água.

Olhei para as árvores querendo chamar a atenção do macaco para o que acontecia dentro do lago, mas não foi necessário. A plateia já havia mudado de lugar e era com admiração que o primata olhava para a água, talvez, nesse momento, sonhando em saber nadar assim.

Sorrindo, despedi-me do grupo deixando com eles a seguinte mensagem:

“Macaco: continue saltando como se o mundo inteiro o estivesse assistindo. O mesmo vale para você, peixe: nade todos os dia como se estivesse defendendo a própria vida. Contemplem sempre suas qualidades e não foquem  em suas deficiências. Usem o que ambos tem de melhor para ajudar a si mesmos e aos outros.”

E será assim, aceitando nossas limitações e ajudando o próximo com nossas qualidades, que juntos, escalaremos as mais altas árvores e atravessaremos até o mais extenso dos lagos.

O Poder do não poder

Não é raro, diria até que é bem frequente nos dias conectados de hoje, casos relatando exemplos de superação da condição humana. Protagonizados por amputados, doentes terminais, feridos em algum desastre ou mesmo pessoas comuns expostas a situações extremas. Esses narram feitos que muitas vezes, nós, que quero crer na maioria gozamos de perfeita saúde e capacidade motora, não nos atreveríamos a sequer tentar, há muito poder no simples fato de não poder.

Em contrapartida, na outra face desta lua, digamos no lado iluminado, cheio de vida, braços e pernas, estamos nós! Sendo subjugados por uma força invisível e contraria a nossa vontade, para simplificar posso chama-la de “o não poder por tudo poder”. E de onde vem isso? Por que esse fantasma caminha ao nosso lado dizendo: – Desista, você não chegara. Existe um peso muito grande na simples possibilidade de ser apto a se fazer algo: Você não pode fracassar! Apenas esse medo já seria o suficiente para fazer muito apto e sequer tentar e ainda temos outros.

Os ditos aptos podem simplesmente não ter motivação para executar determinada atividade, por exemplo, haja visto que acreditam ser totalmente capazes de realiza-la. Muitas pessoas são movidas por desafios e quando esses não existem, nada mais importa. Fazer por quê? Sei que consigo. Apesar do abismo que existe entre o achar que consegue fazer e o fazer de fato. Pode ser apenas o clássico medo do novo, o sair da zona de conforto. Enfim, a lista de medos pode ser bem extensa se detalhada.

Contudo o mais importante de todos ainda é o medo de falhar, justamente o combustível dos nossos exemplos de superação, só que no lado da lua deles significa: eu não tenho nada a perder. O fracasso não os limita, “não poder” os impulsiona. O que para muitos de nós é trivial, para eles pode ser a conquista de uma vida, universos diferentes, pesos e medidas diferentes. E se o fracasso vier, como vem inúmeras vezes, terá servido como uma valiosa lição que será usada na próxima tentativa, porque certamente haverá uma próxima.

O importante de tudo isso, é que podemos ter toda força que tanto admiramos ver nos outros, basta aceitar que o temido fracasso é apenas a pratica que te levara ao sonhado sucesso. Não há garantias que indivíduos com os mesmos recursos sejam aptos a realizarem as mesmas atividades, não somos todos iguais. Nossas aptidões tornarão certas tarefas mais fáceis, outras extremamente difíceis, mas só não conseguiremos fazer aquilo que desistirmos de fazer. Há muito poder no não poder.

Então vamos tentar mais uma vez? Ou quem sabe a primeira vez?

É lá

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É lá

O amor está aonde ele deve estar

No pingo d’agua ou exuberante cascata
Na estrela ou galáxia
No correto e preciso
No incoerente improviso

O amor está aonde ele deve estar

Ao alcance dos olhos
Ou além do horizonte
Na porta ao lado
Ou refletido no espelho, contido, calado

O amor está aonde ele deve estar

Forte, Livre e alado
Ou Morrendo acorrentado
No tubarão de um tanque
Ou no oceano gigante

O amor está aonde ele deve estar

No andar de um sorriso
Sincero, exclusivo
Nos minutos presentes
Ou nos meses ausentes

O amor está aonde ele deve estar

No suor do exercício
Ou da febre insistente
No choro do inocente
Ou na mão que o embala

O amor está aonde ele deve estar

No loucamente correto
No santo ou profano
Na estrada da vida
Ou em um dos desvios

O amor está aonde ele deve estar

Na alegria das cores
No preto e branco das dores
No perfume das flores
Ou no enxofre do vulcão

O amor está aonde ele deve estar

No grito da nova vida
Ou no suspiro derradeiro
No completo e duradouro
Ou no momento passageiro

O amor esta aonde ele deve estar

Em algumas estrofes
No sul ou no norte
Há quem realmente se importe
Há quem apenas deixe passar

Mas o amor está aonde deve estar
E é lá que terás que ir para buscar

Prisões brancas

snow road

Não sei explicar o que aconteceu, mas em um determinado momento tudo ao redor começou a perder a cor. Estranhei um pouco no inicio, tentei voltar pelo caminho que havia me levado até ali, mas não consegui encontrar. Tanto branco me confundia, andei por dias, meses, anos. E no fim estava apenas eu e um imenso piso branco. Com um céu da mesma cor eu não conseguia ver o horizonte, tudo era igual. Exausto de tanto procurar pela saída desisti e sentei, não havia mais o que fazer, eu estava perdido dentro desta imensa prisão branca.

O tempo perdia todo sentido aqui, eu não sabia dizer se passava rapidamente ou lentamente, nada mudava ao redor para indicar se era dia ou noite, eu dormia quando estava cansado, acordava quando o sono acabava. Por sorte não tinha fome, acho que de alguma maneira esse lugar maluco saciava a minha fome e a minha sede. Com o tempo minha visão piorou muito, mal via meu corpo, tudo estava ficando embaçado, esse branco todo não estava me fazendo bem.

E foi assim, sentado olhando para onde eu imaginava que pudesse haver um horizonte que algo apareceu no céu. Lentamente caiando, girando suavemente, parecia vir na minha direção, era algo bem pequeno, era algo que tinha cor e por isso chamou tanto a atenção. Passou girando em frente aos meus cansados olhos, e graciosamente pousou na minha frente. Uma linda pétala de rosa vermelha. Olhei para cima, para todos os lados a procura de outras, mas parece que só caiu essa. De onde? Acho que essa resposta eu nunca terei.

Quando pensei em toca-la vi que ao seu redor já não havia o pálido branco, aos poucos comecei a ver surgir terra. Como se aquela simples pétala tivesse o poder de mudar o mundo ao seu redor. Logo que a toquei a mesma sumiu, foi drenada rapidamente para dentro da terra, e o meu piso branco ficou no lugar novamente. Toco no chão gelado tentando entender o que aconteceu. Em vão. Minha pétala não estava mais ali. Choro por ter estado tão perto de sair daqui, choro culpando me por tentar pegá-la de maneira tão rápida, impulsiva, impensada, apressada. Se eu tivesse deixado-a em paz, a essa altura eu poderia enfim estar pisando em terra novamente.

Uma lágrima rola do meu rosto e atinge o piso, no lugar onde a minha ultima esperança desapareceu. Minha lágrima faz a terra voltar a aparecer, e deste solo uma planta começa a nascer e rapidamente na minha frente, uma grande roseira floresce. Pude contar inúmeros botões de rosas aguardando ansiosos para desabrochar. E em um piscar de olhos, todos se abriram, pela primeira vez em muitos anos voltei a sorrir. Não entendia o que acontecia e nem queria pensar nisso. Sou atingido por um forte vento, que gira com força ao redor das rosas, uma a uma as pétalas vão sendo arrancadas e espalhadas por todo meu branco cenário.

E a cada pétala que caia, uma nova roseira nascia, novos ventos surgiam, e novas pétalas eram espalhadas e assim tudo ao redor de mim voltou a ganhar cor, tive forças para voltar a caminhar, e tão logo sai do meu novo canteiro de flores, vi o mundo colorido novamente. Quando já estava fora do canteiro uma pétala passa caindo na minha frente e pousa próxima ao meus pés. Instintivamente abaixo para pegar, mas antes de toca-la penso: – Melhor não, essa pode ser a pétala que irá tirar alguém da sua prisão branca. Olho para o canteiro agradecido e sigo o meu caminho.

Joshua Rubberman