O Peixe e o Macaco

Caminhava, como faço diariamente, em uma destas belas manhãs, quando em busca de algo novo decidi alterar um pouco o tradicional trajeto. Há algum tempo planejava visitar um belo lago, encravado em um  bosque perto daqui.

Algumas centenas de passos depois, estava em frente à lagoa. Confesso que era algo bem maior e mais bonito do que esperava, sua vasta extensão me impedia de ver o outro lado e vistosas árvores salpicavam as suas margens, criando um contorno verde incrível.

E foi em uma dessas árvores que vi um pequeno macaco, requebrando-se em acrobacias, fazia de tudo saltando de galho em galho, parecia que estava em uma competição, dada era sua disposição e variedade de movimentos. Sentei um pouco para apreciar sua exibição e notei que não era o único que o observava. Na margem do lago, um peixe acompanha todos os movimentos com muita atenção, mas seu olhar triste não combinava com todo aquele cenário.

Continuei a observar o primata, que a essa altura, já mostrava sinais de cansaço, até que decidiu dar uma pausa na apresentação e descansar sob a sombra do seu palco. Aproximei-me do acrobata o parabenizei pela explosiva sequência de movimentos. Ele agradeceu e continuou recobrando o fôlego. Comentei que ele tinha espectadores até dentro d’água, mas ele não se mostrou surpreso. Falou que o peixe passava a maior parte do seu tempo o observando nas copas das árvores.

– O maior sonho desse peixe e fazer o mesmo que eu faço, saltar de galho em galho, e talvez até seja por ele que eu me esforço tanto nos movimentos. Acho que minha natureza é meio exibicionista. – ri o macaco, já respirando normalmente.

Busco o peixe, mas ele já não estava mais na plateia. Despeço-me do felpudo novo amigo e continuo minha caminhada.

Refaço o percurso no dia seguinte, na esperança de encontrar novamente a dupla e lá estavam eles: espectador e ator nas mesmas posições, demonstrando a mesma alegria e agitação de um lado e a mesma tristeza e apatia do outro. Desta vez decido ir para o lago conversar com o pensativo morador das águas. Confirmo pouco depois de iniciada a conversa o maior sonho do lacustre amigo:  as árvores, os saltos, o impossível… Tento entender de onde nasceu aquela necessidade, aquela estranha e inusitada expectativa e por consequência, tão grande fonte de frustração, mas ele não soube me explicar.

Ingenuamente pergunto:

– Por que você não convida o macaco para nadar?

Ele me responde que nadar era sem graça… Insisto no convite e nesse ponto, já sem ninguém para assisti-lo, o macaco se junta ao grupo.

Alegre e sempre disposto, o macaco se propõe a nadar com o peixe e sem pensar duas vezes, pula na água e inicia uma corrida com o peixe até a outra margem, incitando o lacustre amigo a lhe acompanhar.

Não foi de se estranhar que o peixe já houvesse ido e voltado, enquanto o macaco se debatia a poucos metros da margem.

Encharcado e já não tão feliz, o macaco saiu do lago, espalhando água por todo o lado enquanto se agitava. Admitiu, por fim. que não tinha a menor chance contra o peixe e voltou para as árvores, a fim de fazer o que sabe de melhor. Como em um passe de mágica, agora, parte da alegria do primata, estampava um sorriso no pequeno peixe. Nadar não parecia mais tão entediante agora e nesse momento, o peixe salta e parte em mais uma travessia do lago. Da margem, só via as pequenas ondas circulares que se formaram após suas piruetas fora d’água.

Olhei para as árvores querendo chamar a atenção do macaco para o que acontecia dentro do lago, mas não foi necessário. A plateia já havia mudado de lugar e era com admiração que o primata olhava para a água, talvez, nesse momento, sonhando em saber nadar assim.

Sorrindo, despedi-me do grupo deixando com eles a seguinte mensagem:

“Macaco: continue saltando como se o mundo inteiro o estivesse assistindo. O mesmo vale para você, peixe: nade todos os dia como se estivesse defendendo a própria vida. Contemplem sempre suas qualidades e não foquem  em suas deficiências. Usem o que ambos tem de melhor para ajudar a si mesmos e aos outros.”

E será assim, aceitando nossas limitações e ajudando o próximo com nossas qualidades, que juntos, escalaremos as mais altas árvores e atravessaremos até o mais extenso dos lagos.

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