As Carroças de Friedrich

Joseph era um jovem alemão que nasceu com um dom, assim como cada um de nós. No seu caso manipulava madeira como ninguém, praticamente a esculpia com as mãos. A necessidade do inicio do século o conduziu para a fabricação de carroças, atividade que se mostrava rentável e que foi abraçada como oficio pelo rapaz no inicio da sua fase adulta.

Seu belo trabalho repercutia e cada carroça concluída parecia gritar pelo caminho o nome do seu criador, e novos compradores surgiam. Os negócios iam muito bem.

Friedrich era um dos moradores da colônia, talvez por não ter prestado atenção chegou a fase adulta sem descobrir sua vocação, uma profissão que lhe desse algum prazer. Contudo vendo o sucesso de Joseph arriscou-se construindo sua primeira carroça. Depois de construída, mal andava e uma roda soltou-se do eixo na tentativa do primeiro passeio. Não é necessário dizer que Friedrich passou o resto da semana mancando após ter chutado sua carroça sem um das rodas.

Mesmo tendo rolado de cima da carroça quando essa quebrou, e de tanto rir vendo o irmão furioso chutando-a, Werner o irmão caçula de Friedrich, naquele momento decidiu ajuda-lo de alguma maneira. Mais alguns dias de trabalho fizeram a carroça andar sem deixar suas rodas pelo caminho. Não era uma das carroças de Joseph, mas andava e parecia cumprir o seu papel. Seu construtor, porém, não conseguia vende-la, deixou inacabada a segunda e saiu em busca de uma nova alternativa de trabalho. Ambos os construtores de carroças já trabalhavam com margens muito pequenas de lucro, então reduzir o valor da carroça não era opção, pois significaria trabalhar de graça.

Werner estava em casa matutando como ajudar o irmão, quando viu alguém retornando da casa de Joseph a pé. Questionado sobre o aparente desanimo o homem respondeu que haviam muitas encomendas e que ele só seria atendido no próximo mês. Naquele momento Werner descobriu qual a sua vocação nesse mundo: “Mas hoje é o seu dia de sorte e senhor não precisará esperar…”. Mais algumas frases de efeito, transformaram a desengonçada carroça de Friedrich em uma das maravilhas da humanidade e essa saiu sacolejando com seu feliz comprador pelas ruas enquanto Werner, ainda em choque, conferia as moedas.

No final daquele dia enquanto amontoavam o dinheiro pela milésima vez, os irmãos concluíram que as carroças de Friedrich poderiam competir com as de Joseph naquele cenário: ausência de produto do concorrente e propaganda de Werner. Naquele momento era o suficiente.

E assim o tempo foi passando, com as vendas de Friedrich melhorando quando Joseph não conseguia atender os tantos pedidos, até que Werner adoeceu. Nesse período da doença não houve vendas. Ficou claro que sem a propaganda eles não seriam nada e mostrou que não podiam depender apenas de Werner para isso. Tão logo teve a saúde restabelecida Werner contratou e treinou um ajudante. Com dois trabalhando na divulgação, independente de Joseph ter ou não carroças, Friedrich vendia igual, com mais propaganda os produtos se igualaram no mercado, levando em consideração as vendas, nunca a qualidade.

Não demorou até que isso fosse notado e novos ajudantes para Werner fossem contratados, assim como não demorou para que Joseph não fosse mais procurado. Esse acabou como ajudante de Friedrich, construindo carroças de alto padrão. Vendidas pelo dobro do preço, já que não havia mais concorrência.

O tempo transformou Friedrich no maior construtor de carroças de toda a região, seu nome é usado em diversas ruas e há um busto seu no centro praça. Joseph ninguém além dos parentes sequer sabe quem é, está velho, pobre e ainda trabalha com madeira por amar muito o que faz. Está construindo uma última carroça, tão boa quanto todas as demais.  Seu maior medo é de morrer e não concluir o trabalho.

Friedrich está na sua mansão dando uma entrevista nesse momento, aponta orgulhoso para uma roda de carroça envernizada pendurada na parede, dizendo que foi da primeira carroça que teve orgulho em construir. Orgulho deve ser sinônimo de ódio, ou de pé latejando no falso mundo da propaganda…

Controle

controle

Uma flâmula tremula e cândida
Bela e artificialmente plástica
Que pouco aquece e nada ilumina
Que insisto em proteger como minha

Penumbra que gera mil tropeços
Deixando meu mundo do avesso
Lentamente ministra o doce veneno
Suave toque da mão, sereno

Rotas soltas traçadas no ar
Andando em círculos perdido está
Não busca ajuda, não quer aceitar
A real imagem que insiste ignorar

Fruto de sonhos e esperança
Frágil amor que não cansa
Em ficar em segundo plano
A loucura contida do insano

No espetáculo de origem perversa
Que sempre aguarda sem pressa
A chama verdadeira se mostrar
Iluminar sua vida, aquecer o lar

Roupas que escondem os espinhos
Luvas que ocultam as garras
Invisíveis mantem as amarras
Da ilusão por desta necessitar

Porque se a verdade aparecer
Rapidamente ira perecer
O que hoje te parece vital
É o que rouba sua vida afinal

Quando a névoa enfim desaparecer
Dentro de ti poderás ver
O falso agrado só te fez sofrer
Roubou lhe a chance de realmente viver

Não importa mais com quem sonhas
Nem tão pouco com quem deitas
Saiba que só existe controle
Quando o controlado aceita

Leões

Meu ânimo decidiu vestir-se com uma roupa de palhaço sem graça e desvirtuando a profissão foi à rua buscando um sorriso impossível.

Pensava ele que rompendo o paradoxo da graça ao tentar propositadamente não vestí-la, que sua ausência de vontade pudesse também converter-se em algo um pouco além do simples ato de respirar. Errou.

O ânimo tal qual o chicote do vento açoita aleatoriamente o que deseja espalhando pelo ar, preferencialmente aquele dente de leão mais distraído. Cabe a semente que voa por um curto período aproveitar a viagem, assim como aqueles acometidos pela inexplicável vontade de viver.

Se a terra que a espera será fértil ou não o tempo irá dizer, mas que isso não turve a beleza da viagem porque no final pode ser a única parte realmente bela.

Nada impede que o vento guie a paciente reencarnação da leonina planta até o rosto do palhaço. E que no fim, ter um dente de leão cravado na lágrima da face seja apenas um pouco de azar de ambas as partes.