Prisões brancas

snow road

Não sei explicar o que aconteceu, mas em um determinado momento tudo ao redor começou a perder a cor. Estranhei um pouco no inicio, tentei voltar pelo caminho que havia me levado até ali, mas não consegui encontrar. Tanto branco me confundia, andei por dias, meses, anos. E no fim estava apenas eu e um imenso piso branco. Com um céu da mesma cor eu não conseguia ver o horizonte, tudo era igual. Exausto de tanto procurar pela saída desisti e sentei, não havia mais o que fazer, eu estava perdido dentro desta imensa prisão branca.

O tempo perdia todo sentido aqui, eu não sabia dizer se passava rapidamente ou lentamente, nada mudava ao redor para indicar se era dia ou noite, eu dormia quando estava cansado, acordava quando o sono acabava. Por sorte não tinha fome, acho que de alguma maneira esse lugar maluco saciava a minha fome e a minha sede. Com o tempo minha visão piorou muito, mal via meu corpo, tudo estava ficando embaçado, esse branco todo não estava me fazendo bem.

E foi assim, sentado olhando para onde eu imaginava que pudesse haver um horizonte que algo apareceu no céu. Lentamente caiando, girando suavemente, parecia vir na minha direção, era algo bem pequeno, era algo que tinha cor e por isso chamou tanto a atenção. Passou girando em frente aos meus cansados olhos, e graciosamente pousou na minha frente. Uma linda pétala de rosa vermelha. Olhei para cima, para todos os lados a procura de outras, mas parece que só caiu essa. De onde? Acho que essa resposta eu nunca terei.

Quando pensei em toca-la vi que ao seu redor já não havia o pálido branco, aos poucos comecei a ver surgir terra. Como se aquela simples pétala tivesse o poder de mudar o mundo ao seu redor. Logo que a toquei a mesma sumiu, foi drenada rapidamente para dentro da terra, e o meu piso branco ficou no lugar novamente. Toco no chão gelado tentando entender o que aconteceu. Em vão. Minha pétala não estava mais ali. Choro por ter estado tão perto de sair daqui, choro culpando me por tentar pegá-la de maneira tão rápida, impulsiva, impensada, apressada. Se eu tivesse deixado-a em paz, a essa altura eu poderia enfim estar pisando em terra novamente.

Uma lágrima rola do meu rosto e atinge o piso, no lugar onde a minha ultima esperança desapareceu. Minha lágrima faz a terra voltar a aparecer, e deste solo uma planta começa a nascer e rapidamente na minha frente, uma grande roseira floresce. Pude contar inúmeros botões de rosas aguardando ansiosos para desabrochar. E em um piscar de olhos, todos se abriram, pela primeira vez em muitos anos voltei a sorrir. Não entendia o que acontecia e nem queria pensar nisso. Sou atingido por um forte vento, que gira com força ao redor das rosas, uma a uma as pétalas vão sendo arrancadas e espalhadas por todo meu branco cenário.

E a cada pétala que caia, uma nova roseira nascia, novos ventos surgiam, e novas pétalas eram espalhadas e assim tudo ao redor de mim voltou a ganhar cor, tive forças para voltar a caminhar, e tão logo sai do meu novo canteiro de flores, vi o mundo colorido novamente. Quando já estava fora do canteiro uma pétala passa caindo na minha frente e pousa próxima ao meus pés. Instintivamente abaixo para pegar, mas antes de toca-la penso: – Melhor não, essa pode ser a pétala que irá tirar alguém da sua prisão branca. Olho para o canteiro agradecido e sigo o meu caminho.

Joshua Rubberman